esquentou o café. gostava bem doce. para acordar, dizia. fazia uns quatro graus. segurava um copo de aluminio para aliviar o frio que sentia nas maos. alice ainda dormia com pedro nos braços. o pequeno teve pneumonia ha uns tres meses atrás, justo quando carlos perdeu o emprego na fabrica de tintas. agora lutava até a morte com outro punhado de desempregados, e apostadores de cavalos, e estupradores, e viciados, e batedores de carteira, e ex-motoristas de onibus, para descargar caminhoes que chegavam cedo ao mercado municipal, e depois conseguir levar os restos para casa. todos na mesma maré que cada vez crescia mais e um dia iria afogar na merda à todos. nao queria estar ali para ver.
marcava cinco da manha. ainda tinha uma hora. ligou o radio. tocava uma conhecida cançao, dessas de abertura de novela. lembrou de quando conheceu alice. seu corpo bem distribuido, umas pernas que faria qualquer um matar por elas. aquela vez que treparam no banheiro no casamento da irma dela, com todo mundo vendo. lhe dava tesao isso. eram tempos loucos. tempos em que nada existia, só a necessidade de estarem juntos. nao sabiam nada de nada, dos preços do supermercado, dos juros dos bancos, das pré-estréias dos filmes, de testes de bombas no deserto, da queda do dólar, dos cambios frequentes de temperatura, bloqueio do transito por una nova passeata de desempregados, enfim, toda a merda que faz com que nos levantemos todos os dias a lutar e permanecer de pé.
depois que pedro nasceu, nao sabia porque porra ela tinha mudado. seus traços, seu compartamento. como culpando ele da merda de vida que levavam. uma boca a mais para comer, e que chora. às vezes nem o deixava dormir na cama. pedro completou tres anos por esses dias, e pediu um desses bonecos soldados que vem com tanque e tudo. algumas vezes pensava que isso era uma estrategia do governo. dentro de quinze anos pedro estaria como o seu brinquedo nas maos deles, com merda até o pescoço, comendo essa mesma merda e violando asiaticas ou paquistanesas, ou qualquer outra em algum país, matando por um punhado de velhos cheirando a naftalina e esperma de assessores, dentro de uma sala tomando um bom conhaque e fumando um bom charuto.
nao comprou. a verdade era que nao tinha nenhum puto centavo no bolso. e a historia da ideologia, dos soldados e toda essa merda, nao tinha convencido a alice. desde entao ela só se referia a ele como inutil. e ele nao respondia. sabia que era verdade.
pegou o 336 na hora exata. o cobrador tinha estudado com ele os ultimos anos do colegio. todos diziam que ia ser presidente da republica um dia. estava sentado agora em seu despacho, com uma barra de ferro ao lado do banco. era uma linha dura. toda noite assinava mais um decreto nas costas de algum vagabundo que vinha tomar o dinheiro da uniao. era o que ele dizia. na verdade estava meio louco. o que importava era que ele o deixava passar por cima da catraca. por uma divida de uma briga que carlos comprou por ele na escola. carlos nao se lembrava. dava no mesmo. a passagem tinha subido muito nos ultimos tempos.
estava de pé atrás. só podia passar para frente no ultimo ponto, justo no mercado. nao ia discutir com o presidente por isso. ia um cara do seu lado fedendo a merda, daqueles tarados que ficam esfregando seu pau nos braços das mulheres que estao sentadas próximos ao corredor. o presidente mandou parar o onibus e, com a ajuda da barra de ferro, quebrou o braço daquele filho da puta e o jogou para fora. o onibus ja tinha rodado 100 metros. carlos olhou para trás e viu como o enfermo entrou no onibus de trás.
no mercado havia poucos caminhoes. o que aumentava a concorrencia. fumou um cigarro vendo enquanto três caras quase se matavam a socos disputando um caminhao de cebolas. esse era o preço da dignidade de muitos que ali estavam. um caminhao de cebolas. um cara se aproximou e pediu um cigarro. ficaram fumando mais um tempo, enquanto se decidia quem era o chefe da manada. ganhou um alemao, desses que a gente reza que nunca cruze nossas vidas.tinha uma grande cicatriz na cara. era conhecido na área. uns diziam que já havia sido supervisor de uma merda qualquer. todos eram.
um tempo depois o bando avistou um caminhao pela avenida central. os ânimos começaram a esquentar. segundo round de uma luta que parecia nao ter fim. nem ganhadores. ficou despreocupado. conhecia o velho do caminhao de laranjas que chegava. gostava de carlos. dizia que se parecia a um filho, ou primo, sei lá, que tinha ficado louco numa dessas guerras. a única diferença desse cara para cada um deles, é que o primeiro recebia uma boa pensao do governo. quanto a loucura estavam iguais.
descarregou durante uma hora. o velho lhe deu trinta pagos. nao estava mal. tinha feito uma abertura na sola do sapato onde levava o dinheiro até a casa. trinta contos era uma boa quantia. bob caiu semana passada por menos. haviam dado um navalhaço no pescoço do rapaz. bob era esperto, mas nao o bastante. era um cara novo com uma pensao para pagar. tinha planos. ficaria mais dois meses juntando o que pudesse. ia comprar uma moto e trabalhar de entregador. era um lenço de seda no meio de trapos sujos que limpavam aquela máquina e a fazia sair adiante, para mais tardes serem devorados por ela.
subiu pela central até a rua oeste. Ainda estava frio, mas o sol da manha o confortava. Não iria esperar outro caminhao. Pensou no quanto valia a merda da vida que levava. Gostava do pequeno, se parecia a ele, Quanto a Alice, sabia que não o amava mais,que o que tiveram já se havia perdido há muito tempo. Muito por culpa dele.
Ouviu que lhe chamavam. Deu a volta e sentiu o aço penetrar sua barriga num golpe forte. Caiu no chao molhado com o blusao empapando de sangue. Tinha dado um cigarro àquele canalha naquela manha. Buscava nos bolsos de sua calça o dinheiro do dia. Trinta contos. Agora sabia o que valia sua vida.
Fechou os olhos e esperou que o outro se fosse. Reuniu forças e se levantou. Sangrava muito. Tirou o blusao e deu uma volta forte na altura da ferida. Era um belo buraco. Coisa de artista. Alguns quarteiroes e estava em casa. Perto dali havia uma pequena loja de brinquedos. Lembrou que de pequeno passava o dia na rua chutando uma lata, ou rodando um pneu, ou apostando corridas por caramelos. Eram tempos difíceis, mas felizes. Entrou na loja quase sem forças, meio tonto. Deixava rastros de sangue por onde passava. Um vira-lata, desses pequenos, magro de fome e de sarna, o seguia. Dois perdedores, cada um a sua maneira. O segundo não tinha culpa. Apontou para um desses bonecos de soldados, de plástico, que estava na vitrine. O dono, um velho que parecia irlandes, ou alemao, a essa altura dava no mesmo, mordia um bom sanduiche de pernil. Limpou os dedos sem tirar o olhar de Carlos. Viu o sangue e pensou em chamar a polícia. Carlos pôs sobre o balcao os trinta pagos, já vermelhos. O velho lhe alcançou o brinquedo com uma cara que pareceu naquele momento a de Alice. Uma mistura de ódio e nojo. Deu a volta sem esperar o troco. Sabia que não iria precisar. Um quarteirao mais e estava em casa. O cachorro seguia a seu lado, lambendo o rastro de sangue que Carlos deixava. Entrou sem fazer barulho, com os olhos semi-abertos. A ferida queimava. Alice estava no banheiro, o pequeno via televisao. Um comercial de um circo que chegava na cidade. Pensou nos palhaços. Sempre teve medo deles. Nunca foi ao circo por isso. Deixou o boneco na mesa. Saiu e sentou numa velha cadeira a frente de casa. Com o cachorro deitado em seus pés, acendeu um cigarro. Deu uma tragada e sentiu o vento frio cortar sua cara. Duas crianças passaram correndo atrás de uma bola. Viu o cao se afastar e segui-las. Antes de morrer ouviu o pequeno dizer pra mae, enquanto abria o brinquedo, que quando crescesse queria ser soldado. Eles venceram.
domingo, 25 de noviembre de 2007
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2 comentarios:
Conto bacana, visceral, irônico, bem escrito. Lembra muito Rubem Fonseca.
Abs
Eu gostei.
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