Era fácil. Era só subir as escadas e encher a mala com algumas peças de roupa, a escova de dentes, um pente, um par de sapatos, e acabar com aquele jogo que iniciou há dez anos atrás, e que nao havia vencedores, só derrotados. Mas a falta que sentiria de Julia nao o permitia chutar o balde. O sorriso daquela pequena salvava vidas, evitava guerras, movia mercados, causava tremores, descubria curas, ligava a tv. Era o seu universo. Quanto à Laura, já sabia que podia viver sem ela, e muito melhor. Só sentiria falta do seu bolo de maça. E nada mais. Já estavam cansados das mesmas brigas de sempre, os mesmos motivos de sempre. Nao se lembrava da última trepada que deram. Mandou que procurasse um médico: nao era normal dezessete meses de dor de cabeça. Enfim…
Trabalhava na livraria de um amigo de seu pai. A coisa tinha ficado feia na firma. Demissao em massa. Cento e cinquenta novos números nas estatísticas do seguro desemprego, das violencias de genero, dos catadores de comida, dos vagabundos de saída de igreja, dos suicidios, dos assaltos a pequenos comercios, dos divórcios, da inadimplencia, e das demais merdas que nos fazem engolir. Essa é nossa parte do bolo. O que nos toca.
Nao dormia bem, nao comia bem, apenas caminhava. O caminho até o trabalho era longo, mas era sua terapia. Ia pensando no que tinha feito de errado para sua vida ter se transformado na merda que era. Tinha parte da culpa, e sabia. Tinha tirado Laura da casa de seus pais com dezenove anos. Se apaixonou por aqueles peitos duros e aquelas pernas grossas. Casou por tesao. E agora que os anos de casamento acabaram com o semblante juvenil da mulher, já nao sabia o que havia. Mas havia Julia. E isso era tudo.
Filosofia, arte, esportes, dança, exoterismo, auto-ajuda. Tudo estava em seu lugar. Levava a livraria em ordem, embora estivesse com a cabeça em outro lugar. Sabia que nao podia perder aquela boca. Nao ganhava bem, mas era o que havia de momento. Aquele dia foi comunicado que teria um companheiro de trabalho, e teria que ensinar o funcionamento da livraria. O medo de que pudesse estar sendo substituido o fez lembrar das filas das agencias de emprego, do desespero de estar sem nada para fazer, das cobranças da mulher, e o medo de voltar a beber para esquecer…
Sua vida pode se resumir num antes e depois da entrada de Angela na loja. O chefe vem e lhe apresenta a que seria sua companheira de trabalho, a que deveria ele ensinar tudo o que sabia. Alta, loira, olhos dum azul nunca visto por ele antes, e um par de peitos e pernas que lhe fizeram voltar no tempo e sentir aquele desejo que antes sentia por Laura. Se apresentou com um amistoso e balbuciado “bom dia”.
Estavam sempre juntos. Ela fazendo perguntas sobre os livros, sobre procedimentos, e ele, sem conseguir tirar os olhos daquele rabo, daquelas panturrilhas. Ah, aquelas panturrilhas. Dizia seu pai que a uma mulher bastava olhar as panturrilhas para saber se era boa de cama. E ela deveria ser.
No final do dia voltava à casa. Laura o notava muito calado, mas com uma cara diferente. Nao estava muito atento, nem mesmo quando Julia lhe preguntava algo.
Ele, imaginando que a essa hora, aquele corpo estaria metido numa camisola rosa, mostrando todas suas curvas, sozinha numa cama de casal, esperando um macho que pudesse metê-la sem escrupulos, sem pudor. Imaginava suas maos metidas entre seus cabelos, puxando com toda força, enquanto gozavam juntos, ela de quatro, ele esgotado de tanto prazer. Tomou uma ducha fria, se maturbou e foi dormir.
O movimento era fraco aquele dia. Fazia frio, mas mesmo assim o decote do vestido de Angela era no mínimo provocativo, para nao dizer indecente. Explicava a ela o funcionamento do programa da livraria, atrás do balcao. Nao imaginava que aquele livro de biologia que caiu mudaria toda a sua vida. Angela se ajoelhou para pegar, e antes de levantar, parou na altura de sua cintura, e olhou nos seus olhos fixamente enquanto baixava o zíper de sua calça. Seu pau doía de tanto tesao, e ela, sem tirar os olhos dos seus, mamava com devoçao, com ternura, com carinho, disfrutando daquele momento. Nao se aguentou e gozou na sua boca. Ela engoliu. Nao havia ninguem na loja. Rapidamente fechou a porta, colocou um cartaz de volto já, e até com certa violencia, a colocou de quatro sobre pilhas de livros numa mesa do centro da livraria. Ali gozaram juntos sob olhares de Hermingway, Bukowski, Machado de Assis, Luís Fernando Veríssimo, Paulo Coelho e Eduardo Galeano.
Viveram um mes louco, trepavam todo dia depois do expediente na livraria ou na casa dela. Estava louco por ela, pelo seu jeito, e de como modificou sua vida. Vivia sozinha numa casa pequena, mas ajeitada. Seus pais tinham dinheiro, pagavam seu aluguel. Chegava em casa mais tarde. Contagem de estoque, dizia. De verdade estava mais feliz, mais aberto, brincava mais com Julia. Laura sabia que só podia ser duas coisas: dinheiro ou mulher. E o que recebia nao era motivo para muita festa…
Sentiu-se surpreso e até certo ponto ofendido, o dia que Angela pediu que viesse a viver com ela. E mais surpreso ainda quando ela sugeriu que a unica maneira de viverem felizes, eles e Julia, era livrando-se de Laura. O poder de convencimento dela era surpreendente.
Doía o coraçao fazer isso, mas era preciso. Sua vida necesitava.
No outro dia, aproveitou por um momento que ela foi até a sala e na cozinha pegou a primeira faca que encontrou e, sem rodeios, num acesso de loucura, tapou-lhe a boca, e pensando no que disse Angela, puxou sua cabeça para tras enquanto abria seu pescoço, decidido de estar fazendo o correto e mudando o curso da sua vida. Estava chovendo. Os pingos de chuva lavavam os restos de sangue juntamente com sua alma. Chegou em casa, abriu a porta e sentiu o cheiro doce do bolo de maça de Laura. Foi até a cozinha, a enlaçou pela cintura e lhe deu um beijo na nuca. Julia brincava na sala com suas bonecas. Ao ver seu pai, sorriu. Aquele sorriso salvava vidas.
Suscribirse a:
Enviar comentarios (Atom)
7 comentarios:
Admiravél dom querido companheiro!
Surpreendente o final.
Grande Abraço saudaçoes tricolores.!
Ricardo.
Muito bom o texto! Surpreendente o final!!
Achei teu blog numa comunidade do orkut e já virei fã!
Coincidentemente torcemos pro mesmo time. Muita sorte pra ele hoje!
Abraços, e quando puder, pode passar no meu blog!
beem analitiiico [!]
Excelente, boa dose de suspense e erotismo, parabéns e que venha o próximo.
Oi!
Eu sou a Mayra, trabalho na área de marketing da boo-box.
Estava visitando alguns blogs da comunidade Escritores Anônimos, e encontrei o seu...ele me chamou muito a atenção.
Tenho uma proposta a te fazer. Você pode me enviar seu e-mail? Meu e-mail é mayra@boo-box.com
Aguardo contato :)
Olá!
A LivroPronto Editora convida você, autor, para uma conversa sobre a publicação de sua obra.
Escreva para nós!
gabriela@livropronto.com.br
Um grande abraço!
Me amarrei no final, mas acho q tem um errinho de ortografia no meio do texto, numa excelente sentença por sinal. Deve ter passado batido na revisão.
"Seu pau doía de tanto tesao, e ela, sem tirar os olhos dos seus, mamava com devoçao, com ternura, com carinho, disfrutando* daquele momento."
Creio q seria "desfrutando", mas se não for, perdoe-me o erro.
Publicar un comentario